sexta-feira, abril 27, 2007

Que belos escravos faz o amor
E como são obedientes, senhor meu
Pois a quem melhor se ordena
Do que àquele que livremente pena
Por todos os vossos desejos?

E peço-vos, meu amo,
que me não liberteis jamais.
E que tenhais longa vida
pela qual vos possa servir.
E quando morreres
levai-me convosco para a escura tumba,
qual faraó que sois aos meus olhos,
Que de bom grado partirei convosco.

Se algum dia, senhor,
fizer diferente da vossa vontade
castigai pois o meu corpo
que feliz vos entrego à dor.
Mas se mo permitires
peço-vos piedade pela minha alma
Que a vossa ira
padecer não pode.

Pois que o vosso coração
me mantém cativa
E prefiro-lhe as cruas cordas na carne
à livre brisa nos cabelos.

Mas meu amo,
se aos escravos é concedida uma vontade
a minha é sê-lo,

vossa e para sempre...

terça-feira, abril 24, 2007

Só ler depois da meia-noite!

Querido monstrinho João, isto ia ser só um post de parabéns pelos teus vinte anos (até doi!) mas depois lembrei-me que estamos um bocadinho down. E depois vi isto na televisão. Foi uma das coisas mais bonitas que já vi...e fez-me pensar...então em vez de estar com retóricas, deixo aqui uma coisa bem melhor

http://youtube.com/watch?v=2ihir1-mPsU

E este ano vai ser especial, tenho a certeza!

segunda-feira, abril 23, 2007

Parabéns!!!

Se no mundo existe alguém que merece toda a felicidade, essa pessoa é a nossa Marianita! "És liiinnnnddddddaaaa", como diria um adepto de uma claque de futebol.
Mé, acho que falo por todos quando digo que és amorosa, poderosa, gostosa...:P lolol. Enfim, todo um conjunto de atributos que só tu desconheces! Numa palavra, tu és:


http://www.youtube.com/watch?v=53ith7bNN8w

sexta-feira, abril 20, 2007

O Aniversário de Ken!

Era um Ken como outro qualquer...mas custumava ser especial. Não porque fosse um daqueles aos quais se pode fazer a barba ou daqueles que vêm com uma prancha de surf (aliás, ele nem boiava na banheira)...mas custumava ser diferente...

Olhou-se num pequeno espelho cor-de-rosa da Barbie...estava desgastado. As suas lindas roupas fabricadas na França que trazia originalmente tinham sido substituidas por uma t-shirt rasgada de um brinquedo não identificado e por umas calças que eram da Barbie e que lhe apertavam ridiculamente as coxas. Já nem sapatos tinha...mas custumava ser especial...

Perdera a preferência da menina...agora tudo o que havia era a Barbie, o carro da Barbie (que ele custumava conduzir), o cavalo da Barbie (que ele custumava montar com uma capa de príncipe), a casa da Barbie, onde ele já morara como marido. Mas e agora? Era só mais um brinquedo que morava na arca comum...

E hoje era o seu vigésimo aniversário...e a ingrata Barbie nem um beijo de consolo lhe dera depois de tantos anos embalados na mesma caixa...

Era o que Ken pensava à medida que subia a estante para se atirar...pulou...com um som seco caiu no chão e lembrou-se de que não podia morrer...e mesmo quando a menina decidisse abandoná-lo, ele demoraria muitos anos a biodegradar-se...era de plástico... Nem a liberdade de morrer ele tinha!

O Ursinho Zarolho riu-se dele e levantou-o: "Feliz aniversário Ken!"

terça-feira, abril 17, 2007

Contagem regressiva para o fim da alma - 17º dia

- Boa noite. Então como está o nosso inclino?- a enfermeira vinha mais uma vez para me medir a febre e a tensão. Segundo o doutor Ferreira dos Santos, estava mais saudável que qualquer um dos doentes que se encontravam no quarto comigo. Lembro-me que naquele momento ri-me com ele de contentamento... até olhar em volta. À minha esquerda... o velhote que tinah pelo menos quatro paragens cardíacas por dia; à minha frente, uma senhora que vomitava tudo o quanto comia; e à minha direita...estava... bem... ninguém. O seu ocupante tinha morrido com um AVC. "Hurray...sou o que estou melhor...não é muito difícil..." - pensei
- Estou bem, senhora enfermeira. Só com fome.
- Não se preocupe que hoje já pode comer. Teve muita sorte sabia? Geralmente as pessoas que entram no hospital, na sua situação não sobrevivem. Na maioria destes assaltos à mão armada, as pessoas perdem tanto sangue que não conseguem sobreviver. Ainda por cima, onde lhe enfiaram a faca! Cruzes... mesmo em cima do fígado!
Sorri-lhe pela ignorância. Tinha sido eu que me tinah atacado. Aquela desculpa tinha sido inventada pela Pipa, no dia da minha admissão.
-Claro. Ainda bem.
E a enfermeira saiu.
Fiquei ali quieto olhando o tecto e a luz fluorescente que dele se dependurava. Quem diria... quem diria que depois de tanto, uma coisa tão pequena, tão habitual tinha despoletado toda a tentativa de suicídio. Quem diria?
Pus-me a pensar, olhando agora pela janela. A enfermeira tinha-me perguntado, o que é que sente...Bem, tenho de pensar...

*

Mariana entrou no escritório do seu patrão, sem ser chamada.
- Sim?- perguntou ele, não compreendendo a sua motivação.
Sem falar, Mariana tirou a blusa que lhe apertava o corpo magro. Tirou as calças e ficou assim, apenas em sutiã. Qual cão que vê comida, o patrão salivou, como se lhe fosse exibido um pedaço de alimento. Assim, sensual Mariana caminhou e colocou-se sobre a mesa deitada. Virando-lhe as costas, exclamou:

- Está a ver doutor? O que eu quero?
Não houve palavras, não houve perguntas. Apenas corpos a soltarem-se das suas pesadas roupas, caminhando vorazmente um conta o outro. Ali, como animais no cio, soltaram suspiros de prazer e de necessidade. Ele, exclamando quando com as suas mãos delicadas, Mariana lhe tocava no peito e lhe percorria a barriga. Quando as suas mãos lhe prendiam as costas para se apoiar entre aqueles movimentos selváticos e frenéticos. Quando os seus lábios se fechavam em cada parte do corpo, fazendo erguer-se ainda mais.

Ela...
Nem tanto de prazer, mas sim de necessidade.
Exclamava de satisfação quando nela sentia aquele corpo estranho. Quando nela sentia as suas mãos pesadas a passar-lhe pelo corpo bem definido e mais velho. Quando ele lhe beijava cheio de força mas estranhamente, com carinho.
Mas mesmo assim, porquê daquelas lágrimas?

Naquela transacção, Mariana chorava, feito Madalena com Cristo na cruz. Chorava pela sua tristeza... pela sua solidão. Chorava por aquilo que tinah feito e pelo que agor,a de novo repetia. Chorava por si. Chorava não sabia por quem...Tudo isto enquantogritava de prazer... ou seria dor~? Não sabia... só sabia que tinha uma impressão forte no peito que lhe dava vontade de chorar e gritar ou gemer... assim,

Exclamava por alegria...
Chorava por solidão...


*
- Não sei...- disse para mim, naquela enfermaria.Não sei como me sinto. Tinha o corpo quase sarado, apenas tinha aquela comichão nos pontos e naquela cicatriz que se estendia sobre o fígado, naquela ferida ainda por sarar. No meu peito... sentia-me mal. Sentia-me oco. Vazia e emoções, vazio de sentires. Nem ódio, nem raiva, nem alegria ou amor. Estava lavado de sentires...largado de vontades. Estava apático, sem reacção.
Mas estranhamente, no meio disso tudo, estava bem...Estava finalmente de bem coma vida...compreendia que tinha medo de morrer. Compreendia que se esta vida era o meu inferno, também a próxima o seria. Então porque não viver a que já tinha?
Sorri e deixei-me cair na cama. Puxei do jornal que me tinham trazido e li:
O primeiro ministro tinha um problema qualquer com uma faculdade privada, por resolver...
Al´guém tinha morrido não sei aonde... enfim, o mesmo de sempre. Caminhei então para aquilo que sempre li - o horóscopo. Percorri todos os signos antes do meu. Estavam todos bem, pensava eu.
- Amigo, está a ver o horóscopo? - era o doente da esquerda, o que tinha ataques sucessivos
- Sim, quer saber o seu?
- Já agora. Sou Leão
Li-lhe por alto o horóscopo. Era um dia favorável. No plano afectivo estava pior e no financeiro estava bem. Li-lhe então o último parágrafo:
- No plano da saúde, sentir-se-á revitalizado e cheio de saúde. Tenha cuidado com o estômago.
Rimo-nos os dois. Parados ali, sem comer, alimentados por soro, a alimentação sem dúvida, seria a nossa principal preocupação! Li então o meu:
"No plano monetário, não terá grandes despesas. Dia favorável!"
Ri-me. Não tinham de certeza visto as despesas que eu tinha de pagar ao hospital...
"No plano da saúde, terá problemas de fígado..."
Ri-me! "Vá lá, uma em três!"
"No plano afectivo terá uma semana muitofavorável. Hoje é um dia propício para conhecer novas pessoas e desenvolver laços e relações. A sua sensualidade emanará e atrairá paixões proibídas, talvez mesmo pessoas que o tenham abandonado"
- AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH - ri-me que nem um desalmado! Ri-me de toda a situação. O ridícul oque era estar numa cama de hospital a ler o horóscopo... o ridículo que era eu estar ali... o ridículo que tinah sido a minha tentativa de suicídio... o ridículo que tinha sido a minha morte interior... o ridículo que tinha sido, Bernardo, a nossa relação.
Ri-me e pensei: "Meu Deus! Como é bom estar vivo..."
Nesse momento, ao meu lado, o senhor teve de novo uma paragem respiratória... o seu dia favorável tinha acabado, assim como a sua vida...

sexta-feira, abril 13, 2007

A Senhora do Anel

Aquela viagem de metro seria diferente de todas as que Sara já fizera. Hoje havia uma quantidade especial de mãos segurando-se a tudo o que havia naquela carruagem. E hoje Sara notaria um sorriso triunfante numa mão adornada por uma argola dourada. Uma aliança...aliás, milhares delas cobriam o varão do metro onde a mão vazia de Sara se agarrava.

Sentiu-se miserável...porque usavam as pessoas aquele pequeno dispositivo de aprisionamento? E porque não o sentiam como tal?
Era como uma necessidade cruel e humana, que todos os de nós que estão felizes e amados sentem de o mostrar aos eternos depressivos como Sara. Criaturas infames eram aqueles humanos da argola dourada, que transportavam num só dedo todo o poder da felicidade.

Amanhã, Sara poria no dedo o único anel que possuia. Não era nada de especial, mas sentiu-lhe o poder cruel de relembrar aos outros porque estão tristes. Nesse dia no metro, os olhares espicaçantes duma sua colega minavam o pequeno objecto da sua maldade. Mas eis que passa ao seu lado uma mão com um reluzente aro, de tal maneira valioso que fez a invejosa colega exclamar:

"That's Love!"

quinta-feira, abril 12, 2007

Contagem regressiva para o fim da alma - 18º dia

Doutor, doutor! Veja-me...Irra mulher, já lhe disse que...tem uma chamada...queria marcar consulta...estou deprimido...tem consulta no dia...Isso, faça força...

Todo aquele zumbido do hospital, confundia-se com os meus pensamentos, que giravam freneticamente na minha cabeça, ainda azamboada. Finalmente dar-me-iam alta do hospital. Quatro dias tinha eu estado lá, um nos cuidados intensivos. Os restantes num quarto minúsculo, deitado sobre mim numa cama ao lado de um doente com 70 anos, que todos os dias tinha uma paragem cardíaca.

- Como te sentes?- tinha sido a Pipa que me tinha vindo buscar ao hospital. A minha família estava desinteressada de mim. Tinham-me visitado todos os dias, é certo... mas sempre que podiam, confiavam naquela rapariga para tratar de mim.
- Sinto-me...não sinto nada...
- O quê?! Não sentes as pernas é?- Pipa entrou em pânico.
-Não.. não sinto dores, nem tristeza, nem alegria... nada. - disse sereno. O meu rabo estava mais do que dormente, é certo, de todos aqueles dias na mesma posição. Não me podia mexer muito, por causa das costuras que tinha no abdómen.
- Parvo! Assustaste-me!
Saímos então dali. Uma senhora morria nesse preciso momento, ao lado de uma sala de emergência, de onde um choro de novidade se fazia ouvir. Ali estava... o começo feliz, um trágico fim...Ali estava a minha vida...
- Parece que já nasceu o bebé.
- Conheces a mãe?
- Era uma senhora que estava ali nas urgências. Deve ter logo entrado em trabalho de parto, para ter a criança aqui nas urgências.
Não quis saber mais daquilo. Saímos dali, enquanto eu pensava para mim, quão bom seria se pudesse começar de novo...despedi-me da criança... desejando-lhe boa sorte.

*

- Sofia... agora não!- Bernardo tirava a mão da filha do advogado de dentro das calças. Já tinham tido alguns casos antes...não era novidade nenhuma de que o Bernardo não se conseguia manter fiel. Namorava, há 15 dias apenas. Tinha uma namorada que o idolatrava, uma vida boa, e finalmente aquele rapaz com que se tinha divertido, aquele a quem tinha feito aquilo... tinha desaparecido da sua vida. Desejava que fosse agora para sempre.
- Oh.. vá lá... não queres porquê?
- Eu sou comprometido!
- Ahahahahaha.
- Que é?
- Deixa lá... eu desculpo-te a hipocrisia
!- tirava finalmente a mão das calças. Estavam num apartamento na zona da estrela em Lisboa. Dali, viam parte da fachada da assembleia da república. Era ali que vivia Bernardo.
- Por quanto tempo vai durar essa relação?
- Com a Joana?
- Sim, com a Joana! Por quê? Há mais alguém?
- Não não, esquece.
Tanta tinha sido a farsa, que por vezes se esquecia do que me tinha feito. Às vezes esquecia-se de que já não precisava de encarnar aquela personagem. O bobo, já tinha caído.
- Bom, tenho de ir. Dá cá um beijo, já que hoje não há queca!
- Tento na língua!
- Riram-se os dois com o trocadilho.
Sofia saiu dali e desceu as escadas. Ali cruzou-se com a Joana. Estranhamente, sentiram-se ambas mal. Tentaram disfarçar, mas foi evidente que nem uma nem outra se suportavam. Mas por quê? Se não se conheciam... Sofia caminhou então para o carro, o seu mazda vermelho, oferecido pelo papá. Entrou e seguiu em direcção à baixa pombalina. Aí, caminhou para o café onde se senta o Fernando Pessoa, e bebeu o seu café descansada, trocando olhares com desconhecidos, tentando saber qual deles a queria levar para a cama. Por momentos, os seus olhos cruzaram-se com um rapaz... e isso bastou para ter companhia para a noite.


*

Joana saiu do café, e entrou dentro do seu carro. Trazia o seu top mais revelador e a sua saia mais curta, a saia que lhe tinha oferecido a sua amiga Mariana, no dia dos seus anos. Trazia-se bonita porque naquele dia era o dia da sua folga. Podia finalmente passar mais do que uns breves momentos com o Bernardo. Saiu então da baixa, onde tinha estacionado o carro e acelerou, em direcção à 24 de Julho. Foi então que um carro bateu. Foi só um choque de nada, mas tinha sido o suficiente para criar alvoroço.
- OH que merda! Tenho de parar por causa disto!
Saiu do carro
- Boa tarde. Sou a tenente Joana Silva. Resolvem ambos a bem ou é necessário a intervenção da polícia.
- A culpa é dele
- era Pedro. Estava com os olhos postos na estrada e por isso nem reparou no maluco que vinha atrás dele a abrir!
- Sim, eu vi. Posso ser testemunha.
- Não será necessário. Eu responsabilizo-me - disse o
homem.
Joana caminhou para o carro e falou para a esquadra
- Patrícia temos um X45002 na 24 de Julho
- Afirmativo. Vou mandar a polícia de trânsito.
- Obrigado.

*
- Vocês tem alguma coisa no carro?
- Não, só uns riscos. Facilmente resolvemos isto.
- Desculpe lá! É que a minha mulher está a ter a criança agora. Ainda por cima nas urgências
- Ah, os meus parabéns!
- Obrigado. Desculpe lá a maçada!
A tenente Joana voltou para junto do acidente.
- Já chamei a polícia de trânsito. Vou confiar em vocês para resolverem as coisas. Aqui tem o número da esquadra, caso seja preciso.

*

- Obrigado. - Também Pedro estava com pressa. Tinha muito trabalhinho para fazer.
- Uma boa tarde! - Joana entrou no carro e apressou-se a chegar a Santos. Aí, subiu até à Estrela, para ir ter com o seu príncipe encantado. Estacionou atrás de um mazda Vermelho e pensou que ricas vidas tinham os outros. Subiu as escadas... e por cinco minutos, não apanhou Sofia com a mão nas calças do seu grandioso príncipe.

*
- Boa tarde Vizinho.
- Boa tarde. Como está?
- nunca antes nos tínhamos falado, mas naquele dia, em que voltava do hospital, estranhamente sentimos a necessidade de comunicar. O seu nome era Vanessa Bastos. Era psicóloga clínica e trabalhava numa esquadra qualquer, prestando apoio aos polícias.
Eu? Eu era um rapaz estranho, fechado no meu mundo, em parte por culpa do mundo, em parte por sua culpa. Trazia no abdómen a cicatriz da minha tentativa de suicídio.
- Se quiser eu posso ajuda-lo. Não me importo de lhe dar sessões terapêuticas aqui em casa. Que me diz?

- Claro que ele quer! Não é Carlos?
- a mão de Pipa a beliscou-me as costas.
- Sim... porque não
...- não muito entusiasta aceitei. Ficaria para breve a sessão.
Entrei em minha casa e despedi-me da Filipa. A minha gata, Pandora, estava ali. Deitada e sentou-se no meu colo ronronando. Pus ópera a tocar...
e chorei....

terça-feira, abril 10, 2007


O post que se segue, não é aconselhavel a pessoas que queiram manter a sua sanidade mental!





Viva as vermamibogordobacterias!xD








terça-feira, abril 03, 2007

O dia em que morreu Miguel

"O menino morreu!"
E grande alarido se fez no bairro
Porque o menino morreu.

Correm vizinhos à praça
Consolam Dona Gertrudes.

"Mas morreu como?"
A pergunta ecoa pelos vizinhos sobressaltados.

Ninguém sabe.
Ninguém quer saber!

Logo o sr. António corre à cena
Uma solução diz ele ter.
E que ninguém duvide dele!

O prático vizinho examina o corpo
"Está morto sim!"
Os ais multiplicam-se
Como se fosse uma nova verdade.

"Pois então chame a polícia homem!!"
Gertrudes grita, mas a ela ninguém ouve.

Pois não foram eles que cuidaram do menino em vida?
Cuidassem agora em morte.

Um caixote de farripas de madeira logo se fez
Qual jangada da salvação.
Mas este naufrago está morto.
De nada serve a perfeição.
Fez-se rude caixão onde dobrado coubesse o corpo
Porque o menino está morto!

Escava-se funda vala num baldio.
Funda até que não mais se veja
porque o menino morreu!

Morreu como?
Só sabe Deus, e mesmo Ele duvida!
Pois se quase dez anos passara ele
à fome
ao frio
à chuva
De que mal podia morrer agora?

Alguns gemidos chorados soltam-se das mulheres
O sr. António usa a sua razão superior
"Foi melhor assim".

O choro cessa e ninguém se atreve a negá-lo.
(E de facto, que demónios podem ser piores para o menino,
do que aqueles que foram seus vizinhos?)

Dona Gertrudes quer fazer um inscrição
onde está enterrado o memnino...
Mas qual? Dele não se sabe nome
aniversário
origem...

nada

Assim se retiram os vizinhos
Deixando a cova em branco
Pois já tarda o almoço
E o menino está morto, que adianta?


Pois que a morte de Miguel
seja igual à sua vida...

domingo, abril 01, 2007

Contagem regressiva para o fim da alma - 19º dia

- Aiiiii! - Pipa caía mais uma vez daquele banco estreito e desconfortável do laboratório da sua faculdade.
- Apanhei-te!- era Diogo. Tentava todos os dias convidá-la pra sair e todos os dias ela relutantemente recusava. Gostava de Pedro... mas não passava disso. Amava-o? Não sabia. Gostava dele... mas também gostava de Carlos, das suas amigas da faculdade e de outras pessoas.
- Obrigado... - sorriu. "Um sorriso não pode fazer mal!" - dizia ela para si própria. Nesse preciso momento, algo começou a cheirar muito mal. Fumo? é fumo? - AI!!!!
A sua experiência estava a pegar fogo.
- Nada de pânico! Nada de pânico!! - gritava a professora completamente histérica, como se fosse ter um ataque de pânico...
Nesse momento, aquele ser, um rapaz que Filipa apresentara a Carlos, numa fetsa da sua faculdade, já há bastante tempo, apagou-lhe o fogo. Não agradeceu. Não poderia agradecer a alguém que tinha feito aquilo ao seu amigo.
- Vê lá se não pegas fogo a tudo! - e sorriu-lhe... aquele sorriso traiçoeiro e sedutor. Pipa olhou-o altiva e começou a apanhar as coisas da bancada.
- A senhora vai ter de fazer um relatório sobre o acidente!!! - gritou a professora
Pipa revirou os olhos. Olhou para a mão então, e viu que estava a sangrar. Tinha-se cortado ao de leve, com um vidro
- Devias tratar disso! Podes pedir ao teu namorado! - Diogo passou-lhe um pano e sorriu.
- Deixa 'tar! Não é assim tão grave! - e voltou aos seus afazeres.
"Bom... o corte tem de esperar... tenho de fazer o relatório" - pensou, rindo-se com o ridículo da situação...


*

- Ai! - gritei de dor com o movimento de pegar no telefone. O golpe no meu estômago ainda não tinha sarado. Estava até muito inflamado para o normal. E amanhã ia ter a minha primeira consulta com a psicóloga. Não me apetecia nada...
- Estou sim, bom dia Rosa. É o Carlos.
- AIIIIIIII Menino! Como está?
- Estou bem Rosa... só um pouco dorido...
- AI menino! Meteu-me tão preocupada! Tão preocupada! E os gatunos que lhe fizeram isso? Já foram apanhados?
Olhei para mim no espelho do meu quarto.
- Não, penso que não.
- AI estas ruas de Lisboa! Estão um perigo!
- É mesmo... - "será que esta mulher não se cala?"
- No outro dia...
- ahhh Rosa. - interrompi - Olhe não posso falar por muito tempo. Queria só lhe pedir que me voltasse a marcar as consultas para a próxima semana!
- Aiiiiiiii menino! Vai voltar?
- Simmmmm Rosa... - "Pelos vistos não" - Agora tenho de ir Rosa. Beijinhos, fique bem...
- Sim menino e veja lá se apanham os gatunos... ai as ruas de Lisboa... no outro dia...
- Estou a ouvi-la mal Rosa... 'Tou? 'Tou...
- Sim estou a... - desliguei.
Olhei-me de novo ao espelho... Não, o gatuno não tinham sido apanhado... Se não, como poderia eu estar a ver-me ao espelho...


*


- 'Tou Pedrocas.
- Hello minha linda. Como estás?
- Farto de Faculdade.... ia pegando fogo ao laboratório porque me pus a pensar no Carlos...
- Esse miúdo! Quando é que o vou conhecer? Já que falas e pensas tanto nele?
- Em breve. Quando ele estiver melhor do incidente...
- Da tentativa de suicídio, queress tu dizer...
- Pedro! Não gosto de verbalizar isso!
- Mas foi o que foi não foi?
- Sim! Mas não interessa... ele está bem e já lhe passou os amoques...
- Tens a certeza?
- Não, mas ao menos vai começar a ter consultas com uma psicóloga. Sempre ajudará um pouco.
- 'tá bem... Opss. Sorry mor, tenho de ir. Chegou um corpo...
- Poupa-me os pormenores... até logo. Ás oito em minha casa!
- Sim! Não me esqueço. Adeus...
- Adeus.

E Pedro desligou. Também ele apenas gostava de Pipa. Ele, tinha a certeza de que não a amava. Ela, nem tanto. E aquele amigo dela? "Que personagem deve ser!"- pensou ele, esperando poder conhecê-lo um dia. Mas como poderia ele? Estava sempre fechado naquele hospital...